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Flávio Maluf e o investimento de R$ 300 milhões que transforma a energia industrial paulista

A Usina Solar Castilho, maior planta solar do estado de São Paulo, faz com que metade da energia consumida pelas fábricas da Eucatex venha hoje de fontes renováveis, solares e de biomassa combinadas. Esse ponto de chegada é fruto de uma decisão de R$ 300 milhões tomada por Flávio Maluf, presidente da empresa desde 1997, num momento em que boa parte da indústria brasileira ainda tratava a transição energética como uma questão do futuro próximo.

A escala da decisão

A Eucatex produz pisos laminados, painéis MDF e MDP, portas, divisórias, tintas e vernizes, com unidades industriais em Salto e Botucatu, no interior paulista, e em Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. É uma operação de base florestal e industrial que demanda energia em volume expressivo ao longo de toda a cadeia produtiva. O custo energético incide diretamente sobre a margem, e sua variação, atrelada ao ciclo tarifário e à disponibilidade hídrica, representa um vetor de risco estrutural para qualquer empresa do setor manufatureiro.

Foi com esse diagnóstico que Flávio Maluf definiu a Usina Solar Castilho como prioridade de investimento. O projeto não nasceu de exigência regulatória nem de pressão de mercado imediata. Nasceu do reconhecimento de que depender integralmente da rede elétrica convencional expunha a empresa a variáveis que a gestão interna não podia controlar. Gerar a própria energia a partir de uma fonte renovável convertia esse risco em uma vantagem competitiva sustentável.

O volume comprometido indica a dimensão com que o tema foi abordado. R$ 300 milhões em uma única iniciativa de infraestrutura não é um projeto piloto. É um compromisso de capital de larga escala, executado numa fase em que a empresa já sustentava um crescimento consistente e podia absorver o investimento sem comprometer a operação corrente.

Floresta, biomassa e geração própria

A Usina Solar Castilho não opera isoladamente. Ela integra uma cadeia energética que inclui a biomassa produzida pela própria base florestal da Eucatex. A empresa mantém aproximadamente 48 mil hectares de florestas próprias no estado de São Paulo, com certificação FSC desde 1996, e produz 13 milhões de mudas clonais por ano, capacidade que a posiciona entre as de maior incremento médio anual do setor no Brasil.

Essa floresta abastece tanto a linha de produção industrial quanto a geração de biomassa. Combinada com a geração solar, ela permite que metade da demanda energética das plantas da Eucatex seja atendida por fontes renováveis próprias. A lógica é a mesma que orienta a gestão florestal da empresa há décadas: integrar a operação industrial à gestão ambiental de modo que um componente fortaleça o outro.

A credencial tem peso comercial concreto nos Estados Unidos, na Europa e em mais de 40 países para os quais a Eucatex exporta. Cadeias produtivas internacionais exigem, com frequência crescente, transparência quanto à origem da energia utilizada na fabricação dos produtos.

A Usina Solar Castilho transforma essa exigência em um dado verificável, com rastreabilidade de origem que os mercados de destino podem auditar objetivamente.

Os números de 2025 confirmam o cálculo

A aposta energética de Flávio Maluf se deu num contexto de solidez operacional. No terceiro trimestre de 2025, a Eucatex registrou Ebitda recorrente de R$ 191,8 milhões, um crescimento de 26,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, com margem de 24%. A receita consolidada no trimestre atingiu R$ 798,3 milhões. O ano completo de 2025 fechou com receita de R$ 3,1 bilhões.

Esses números indicam que a empresa manteve a capacidade de gerar resultado enquanto absorvia o ciclo de investimento em infraestrutura energética. As exportações respondem por aproximadamente 25% da receita total, com os Estados Unidos como principal destino, atendido pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida. Para 2026, o capex previsto é de aproximadamente R$ 500 milhões, alta de 40% em relação ao ano anterior, com recursos direcionados à expansão florestal, à modernização industrial e a possíveis aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos, como a Argentina. A usina solar não encerrou o ciclo de investimentos. Abriu espaço para o próximo.

Formação, trajetória e estilo de gestão

Engenheiro mecânico formado pela FAAP em 1985, com estudos em administração de empresas na Universidade de Nova York, Flávio Maluf ingressou na Eucatex em 1987 pela área de exportação e importação, migrou para a operação industrial e assumiu a presidência em 1997. Essa sequência, do comércio exterior ao chão de fábrica e deste ao diretor-geral, moldou uma leitura da operação que combina o custo de produção com as exigências do mercado externo.

A decisão não foi tomada por um executivo distante da planta. Foi tomada por alguém que conhece o consumo energético das linhas de produção de dentro, que acompanha as operações em visitas regulares às fábricas e que enxerga a estrutura de custos com o olhar de engenheiro antes de enxergá-la com o de gestor financeiro. Essa proximidade com a operação é parte da explicação para a escala do investimento: quem conhece o peso da energia no custo industrial não trata o tema como um detalhe de infraestrutura.

O investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho expressa uma lógica de gestão que prioriza o controle de variáveis estruturais. Energia cara e imprevisível é uma variável estrutural. Uma usina própria converte essa variável em um ativo gerenciável. Os resultados de 2025 indicam que a conversão já gerou um efeito mensurável na rentabilidade da operação.

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